terça-feira, 24 de julho de 2012

Jaú, 24 de julho de 2012


Às minhas Marias, 


   Ultimamente tenho recebido muitas mensagens e palavras relacionadas a força. Algumas pessoas acham que sou pessoa forte e corajosa. Tudo bem, concordo que essas características são essenciais, inerentes à vida. Acredito que sem elas é impossível viver com qualidade. 
   Entretanto, o que aquelas pessoas não sabem é que não me sinto assim, e nem o por quê de me não me sentir assim. Explicarei. 
   Quando alguém vem me dizer que admira minha força e minha coragem imediatamente eu me recordo das mulheres da minha família, mais especificamente das mulheres da minha família materna, as minhas Marias. Pois elas sim são pessoas fortes, corajosas, destemidas. E que por isso venceram na vida apesar de todos os percalços lutaram e conseguiram construir uma vida bem estruturada. 
   E não me refiro somente a estrutura financeira, que essa é a que menos importa, mas à pessoal. 
  A primeira Maria, que por minha sorte, é minha avó materna. Ela nasceu no agreste, trabalhou a sua vida toda, pouco estudou, casou, teve dez filhos. Desses, nove Marias e um José. Uma mariazinha foi levada por um infeliz incidente. Mas a matriarca nunca desanimou, ainda tinham os outros para cuidar. 
  Com alguns filhos adolescentes e os mais novos ainda crianças, descobriu que seu marido tinha outra mulher e já estava formando uma outra família. 
   Marido esse que tratava suas mariazinhas com rédia curta e muito autoritarismo. Mas nunca, jamais, ouvi minha avó maldizer o seu marido e pai dos seus filhos. Inclusive, quando já idoso e doente, ela o quis ajudar e receber de volta na sua casa já que ele nunca conseguiu prosperar. 
   As suas mariazinhas cresceram, estudaram, saíram do interior e conquistaram a capital. Deixaram para trás um passado pesado para muitos. Trabalho na roça, em casa de farinha, alternado com os estudos. 
Estudos esses que a mãe sempre frisou como prioridade absoluta. 
  E ela estava mais do que certa. Todas as suas Marias, e seu José, ou se formaram e construíram uma carreira ou passaram em concursos e conquistaram sua estabilidade. 
  Além de tudo, o mais importante, essas Marias construíram uma vida digna, com honestidade, força e coragem. Construíram famílias igualmente dignas, com filhos que lutam para viver e seguir os seus princípios. 
  Há alguns anos, a segunda Maria partiu. Lutou 2 anos contra um câncer de pele e JAMAIS desistiu de lutar. Viveu esses 2 anos com uma qualidade de vida invejável quando os médicos a tinham dado apenas 6 messes. Essa é Maria Luiza, Tia Lu, como nós a chamamos. Impossível não lembrar dela sem o seu sorriso estampado no rosto, sua coragem e determinação com relação às coisas práticas da vida. 
  E hoje, o céu está em festa por receber outra Maria, Maria Do Carmo, Tia Do Carmo, como a chamamos. Conseguiu conviver com uma cardiopatia e uma cirurgia não tem bem sucedida para a troca de uma válvula do coração por 10 anos. Teve febre reumática sem nem saber, mesmo assim constituiu uma família de 4 filhos. Impossível não lembrar dela sem sua bondade, serenidade, otimismo e sabedoria de se calar, silenciar na hora mais sensata. 
  Tenho a sorte e o privilégio de além de sobrinho, ser seu afilhado. Sempre tive orgulho de dizer que Tia Do Carmo e Tio João são meus padrinhos. E sempre terei. 
  Espero ser um terço do que você foi para mim com os meus sobrinhos e afilhado. E queria muito poder estar em Aracaju nesse momento para abraçar meus primos e padrinho. Todavia, a vida me designou outra tarefa nesse momento. Mas, o meu coração e a minha alma estão com vocês nesse momento. 
  Às minhas Marias eu só tenho que agradecer, me orgulhar e me espelhar no exemplo de vida, de luta e de garra.
  Amo vocês do fundo da minha alma e espero ter derramado aqui todo o meu coração. Porém, tudo isso muito é muito pouco para expressar o que sinto. 

  Entenderam de onde vem a minha força?

  Saulo de Matos